ONE facilita o comércio com a América do Sul
Isabel Azeredo, Country Head da ONE Portugal
Detentora da 7ª maior frota mundial, com mais de 200 navios integrados em rede de serviços que abrange 120 países, a ONE, acrónimo de Ocean Network Express, integra o conglomerado THE Alliance desde a junção a outras três grandes companhias de navegação e navega em todos os mares e para todos os continentes. Com representação própria em Portugal, a ONE abriu recentemente uma linha dedicada à costa leste da América Latina que facilita o comércio e as exportações dos produtos portugueses e para outras partidas europeias. A sua responsável, Isabel Azeredo, fala-nos destes propósitos.
No extremo da plataforma continental da Europa, sempre se tem dito que Portugal é uma porta giratória para o turismo de e para as américas, mas que também pode assumir uma posição de destaque no comércio internacional por via marítima, como um hub logístico estratégico para mercadoria contentorizada. Basta que para isso aposte neste conceito. Isabel Azeredo, Country Head da ONE Portugal, reforça essa ideia.
EUROTRANSPORTE - Com a estreia do serviço LUX (entre a Europa e a costa leste da América Latina), com acostagens em Leixões e Lisboa, abre-se mais uma porta aos empreendedores portugueses rumo à exportação para o continente sul-americano. São já significativos os volumes embarcado/desembarcado nestas paragens?
Isabel Azeredo - Desde o lançamento do novo serviço LUX da ONE, temos tido uma receção muito boa por parte dos nossos clientes, com volumes de carga transportados dentro das metas definidas para esta primeira fase. Naturalmente, como existem outros operadores no mercado com serviços semelhantes, sentimos as reações da concorrência, num mercado em crescimento.
Que vantagens pode encontrar o cliente português neste serviço relativo a outros similares? A escala em si, a periodicidade semanal da mesma? Ou eram inexistentes, de todo?
Até agora, o cliente português que pretendesse exportar a sua carga para destinos como Brasil ou receber produtos com esta origem, por exemplo, apenas tinha disponível no nosso mercado uma opção, e apenas via porto de Sines. Este novo serviço da ONE veio oferecer uma alternativa altamente competitiva em relação a tempos de trânsito em ambos os sentidos, mas principalmente sendo o único em Portugal com ligação direta entre os portos de Lisboa e os da costa leste da América do Sul, considerando a proximidade deste mesmo porto aos locais de onde sai a carga refrigerada e do mercado exportador do norte da Península Ibérica ou da região de produção de frutas na Extremadura espanhola. A sua periodicidade semanal, com um dia de saída fixo – segunda-feira – permite ao cliente programar de forma mais eficiente os seus embarques, aproveitando inclusivamente a vantagem das ligações adicionais em Roterdão, Londres, Hamburgo e Algeciras com serviços do Mediterrâneo, Médio Oriente, subcontinente Indiano, África do Sul e além.
Quantas embarcações operam esta nova linha por se tratar de um serviço semanal?
O serviço é operado por uma frota de 8 navios, com capacidades que variam entre 3000 e 4000 TEUs aproximadamente, totalizando cerca de 30.000 TEUs.
Quais os principais setores que o serviço LUX irá servir e se já há empresas dos mesmos a mostrarem interesse? Já tinha a ONE sido solicitada nesse sentido [pela criação de uma linha para tais paragens]?
O novo serviço LUX demonstra a responsabilidade e interesse da ONE em contribuir para a cadeia logística internacional e desenvolvimento da produção local, trazendo ganhos de competitividade e maior fiabilidade no transporte de produtos entre Portugal e a América Latina, particularmente o Brasil, fomentando a importância do nosso país como porta de entrada e saída de mercadorias destes mercados para a UE. A ONE assegura, assim, a entrada, através de processos mais simples, de produtos essenciais de origem brasileira, como os cereais, e funciona como porta de saída para cargas produzidas na região da Extremadura (Espanha). Os principais setores que este novo serviço vai servir são o agroalimentar, com a produção de frutas, vinhos, azeite e materiais diversos como vidro, produtos químicos, metais, têxteis, plásticos e cortiça.
Os portos portugueses têm vindo a estabelecer, de forma consecutiva, novos máximos de volume estivado. Corresponde tal facto à crescente importância que o transporte marítimo está a assumir [e ao aumento das exportações portuguesas]?
Efetivamente, nos últimos anos temos assistido ao bom desempenho contínuo dos portos portugueses nos volumes de carga movimentada, significando por isso uma tendência positiva para o setor marítimo do país, pese embora tenha ocorrido uma ligeira quebra no ano de 2023 face ao ano anterior, muito provavelmente devido a fatores como disrupções nas cadeias de abastecimento provocadas pela pandemia COVID-19 e pela guerra na Ucrânia e congestionamentos nos portos internacionais, aumentando os tempos de espera e os custos de transporte. De entre os vários desafios que os portos portugueses enfrentam atualmente destacam-se a manutenção da competitividade, para atrair novos investimentos e acompanhar as inovações tecnológicas, a sustentabilidade ambiental, reduzindo o impacto ambiental das operações portuárias, e as mudanças climáticas, devendo adaptar-se aos efeitos das mudanças climáticas e garantindo a resiliência das infraestruturas.
Os portos portugueses têm de recuperar a competitividade e voltar acrescer e para isso é necessário que sejam feitos investimentos, com foco no crescimento, na capacidade, modernização, sustentabilidade e competitividade. Este trend é crucial para o desenvolvimento da economia portuguesa e para o seu posicionamento no mercado global. É importante que o porto de Leixões avance o mais breve possível com o novo terminal de contentores, inicialmente projetado para o molhe sul, o porto de Lisboa precisa de melhorar os acessos às vias portuárias, assim como estar dotado de infraestruturas de suporte à operação portuária. Por outro lado, é necessário mais agilidade nos processos administrativos e alfandegários assim como a padronização dos procedimentos nos diferentes portos. Precisamos de comunidades portuárias mais fortes e unidas. Portugal tem uma posição de destaque no mercado marítimo de contentores no mundo. Através de investimentos em infraestruturas, conectividade e novas tecnologias, Portugal pode aproveitar as oportunidades existentes e fortalecer a sua posição como um hub logístico estratégico.
A intermodalidade está a ganhar novos apoios, mais concretamente na conjugação com o transporte ferroviário. Para uma empresa como a ONE é este o caminho a seguir, no contexto da descarbonização da sociedade, e por um melhor meio ambiente?
Tentamos fornecer serviços multimodais flexíveis em resposta à procura do cliente. Do ponto de vista da descarbonização, procuramos ativamente oportunidades de colaboração para avançar nos esforços de descarbonização em todas as nossas operações. Por exemplo. A colaboração com TFG Transfracht e METRANS para expandir a nossa rede de transporte ferroviário verde.
O que tem feito a ONE e qual o calendário da empresa neste particular?
A ONE tem como meta atingir emissões líquidas zero de GHG, abrangendo os Âmbitos 2 e 3, até 2050. Para atingir esta meta, a gestão do carbono, a eficiência operacional, os investimentos verdes, os combustíveis alternativos e a construção de ecossistemas comunitários são as nossas principais iniciativas.
Que projetos para um futuro próximo?
Na ONE continuamos comprometidos em fornecer serviços de transporte global seguros e de alta qualidade. Temos um grande foco em investimentos ambiental e economicamente sustentáveis e ações firmes para alcançar emissões líquidas zero até 2050. Estamos atualmente a testar as possibilidades de propulsão eólica, utilizando dispositivos de assistência eólica conhecidos como contentores de folha Vento, bem como a aprovação de princípio recentemente concedida para um navio de duplo combustível de amoníaco, com a Nihon Shipyard Co, Ltd e a sociedade de classificação DNV. O recente investimento de 12 navios movidos a metanol assinala outro marco para a ONE na sua jornada rumo ao zero líquido.
Para além do lançamento do novo serviço LUX, continuamos a encontrar soluções inovadoras para as necessidades dos nossos clientes, expandindo a nossa rede de serviços, como a recente adição ao nosso portfólio do novo serviço WIN, Costa Oeste da Índia – Costa Leste dos Estados Unidos, o serviço Egito – Líbano – Turquia (serviço ELT) e o serviço SIG, Sudeste Asiático – Índia – Golfo, entre outros.
Para melhorar a qualidade do serviço e gerir as interrupções na cadeia de abastecimento para os seus clientes, a ONE tem investido continuamente nas suas operações, das quais os terminais de contentores são críticos. Aquisições recentes de participações em cada uma das empresas TraPac LLC ("TraPac") e Yusen Terminals LLC ("YTI"), e 20% de participação na Rotterdam World Gateway (RWG), ajudarão a ONE a fornecer um serviço mais rápido e confiável a todos os nossos clientes.
Então, muito o que esperar... E nem sequer mencionámos os nossos projetos de digitalização. Na ONE a inovação está no nosso coração e continuaremos a investir e a encontrar soluções inovadoras para fornecer valor aos nossos clientes.
À luz dos recentes acontecimentos a nível global, qual é a posição da ONE e eventuais medidas tomadas face às hostilidades no Médio Oriente, que estão a afetar os mercados de linha, atrasando o comércio internacional e forçando o aumento dos custos de frete?
Estamos atualmente a encaminhar todos os nossos navios pelo Cabo da Boa Esperança para proteção da tripulação, carga e navio. Continuaremos a fazê-lo até que seja seguro transitar pelo estreito de Bab al-Mandab e seja encontrada uma resolução diplomática. Navegar ao redor do Cabo da Boa Esperança estende os tempos de trânsito entre 10 a 15 dias, o que pressiona os horários das embarcações e os tempos de entrega dos equipamentos. Isto tem um impacto nos custos associados e na procura de envios sensíveis ao tempo, no entanto, a entrega segura da carga dos clientes da ONE, dos marinheiros e da tonelagem continua a ser primordial, como deveria.
Sede no Porto e estrutura de 40 colaboradores
A ONE Portugal conta já com mais de 40 colaboradores, sendo uma empresa jovem e com uma estrutura organizacional relativamente simples e flexível, como aliás toda a companhia. Abrimos recentemente novas localizações para os dois escritórios, tanto no Porto como em Lisboa. A deslocalização coincidiu com a celebração dos cinco anos da empresa em Portugal, com estes dois eventos a marcarem um ponto de viragem na história da ONE Portugal, na sequência da conclusão do plano estratégico lançado em 2021 para os escritórios portugueses da ONE. Com o sucesso do projeto, que levou a um crescimento da equipa e à aquisição de 100% da participação da ONE Portugal pela Ocean Network Express Ltd, a mudança estratégica de localização, especialmente no Porto onde temos quase 90% da equipa, foi o culminar do crescimento da ONE Portugal. O novo espaço, localizado no Edifício Burgo, na Avenida da Boavista, no Porto, reflete os ideais e ambições da ONE. Quando se trata da nossa operação, estamos sempre a tentar melhorar a experiência do cliente e ir mais além por ele. Acreditamos que o fator humano é a chave para o sucesso da ONE. Os nossos clientes confiam no nosso serviço e no nosso compromisso para com eles.
Carlos Branco
In Eurotransporte #139